raro calor de agosto

tudo anda muito escuso no raro calor de agosto
entre as calçadas desalinhadas de uma praça
em lugar nenhum que há pouco tempo estava alagada
tempo que passa devagar e rápido
relativo tal qual o senhorzinho de boina e cabelo ralo
lento na marcha porém ágil no jogo de damas
garantindo o que resta da memória e saudosismo
pequenas pontadas e coceiras
como na época que o merthiolate ainda ardia e ele sorria

tudo anda muito escuso no raro calor de agosto
daquele jeito que só a gente consegue ficar parado
esperando uma ou outra solução ao gosto tamanho família
que só pode ser pedida por tele-entrega
mas ninguém liga
o calor de agosto que cole e seque
as fraturas que o tempo escuso cria
sorte a nossa, nenhuma exposta na fotografia

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loft revitalizado

você vestiu o cachecol, porque o frio chegou
só eu não, me atrasei, ainda não acostumei
direito com essa semana que tem sido mais longa
notei sutilmente que nas janelas agora
toca uma milonga reprovando meu moletom
e tenho deixado de lado tudo aquilo que
eu pensava ser belo na estética do frio.

engraçado que dezembro ainda nem veio
e já quero dividir contigo minha sociopatia e a cozinha
de um loft revitalizado em tribeca
com pallets de demolição de mesinha da sala
onde vai colocar os pés pra descansar
enquanto a colher baila pra lá e pra cá na caneca
de café que vou fazer logo depois de acordar
quase duas horas depois de você
quando já será domingo, dia de quase criticar,
os vizinhos que vão ao parque,
mesmo com toda a neve
e só então lembrar que eu iria pra qualquer lugar
desde que você me leve.

olá

você pode até não ouvir
mas todo dia meu coração bate à porta da sua vida
e sai acelerado, pra não ser capturado
não ligue, é que essa coisa de apaixonar
nunca foi muito a minha praia
eu tenho medo de prancha, imagine surfar
em altas ondas do amor, mas agora
também poderia jurar que aumenta a incidência solar
a cada sorriso seu seguido de um olá
queima minhas bochechas, vermelhidão
sol, insensatez, verão, timidez, sei lá
desde que te conheci
tem sido tão difícil definir os rumos todos
tão difícil quanto o desafio de olhar direto
pro sol ao meio dia.
aliás, fácil na história toda, incrível mesmo
só gostar de ti, guria.

há mar.

que bons ventos te trazem
tão leve que me leva
a pôr o sol pra dormir só
pra contar uma história
na beira da cama da madrugada;
fica parada, deixa pintar esse clima
te liga em mim, caso falte luz na estrada.

comparado ao meu amor e mim
nem lua conhecerá tanto a noite
entre meu amor e mim
vão se levantar saudades lentas
como corpos exaustos sem folga aos sábados
de tanto estudar a anatomia da boca
filosofia adentro
e só me preocupa uma ou outra coisa
pra que fique perfeito o ambiente;
um, a ecologia das coisas que ressoam no peito
dois, os sopros de esperança que
giram hélices eólicas dos sonhos.
três, se há verbo pra gente
se há mar.

verão antes do horário

verão acabou antes do horário
atrasei automaticamente todos os
relógios analógicos da cidade pra
não ver o tempo se perder
como se perderam meus dedos ao encontrar bronzeadas
as sardinhas dos teus ombros
como perdi o azul do dia a dia depois que teu olho levou
listei todas as minhas manias
e a mais nova delas é transformar o calendário
em labirinto de domingos
só faltam alguns pra gente se encontrar
e casar e morar
numa casa de cartas
não que exista dimensão entre o que sinto
entre o caminho e as coisas no chão da sala
às quartas quentes
antes de mais nada dizer que
não meço esforços, não meço o tamanho do nós
mas caberia exatamente entre teu pescoço e cabelo
e dormiria ali.
os verões acabariam, os invernos passariam
e eu continuaria atrasando relógios analógicos
pra viver em ti.

notada

suas altas notas
não te fizeram ser mais ou menos notada
por mim, você ainda era namorada
de um qualquer sortudo
que por acaso hoje pode ser eu
te notei, sim, te segui pela rua,
por submundos e por não conseguir desgrudar
desse olho, pelas fotos de ruas pelos carros
passando, parabéns você foi aprovada
em primeiro lugar no meu coração ganhou
uma bolsa integral de beijos que deve
retirar até as sete na secretaria do clube
hora que passeamos com os cachorros
que eram iguais, legal, mas um já morreu
triste, tadinha
morreram também meus medos de ser infeliz
solitário como um huskie de trenós do alaska
que vive abaixo de chicotadas psicológicas
e puxa uma carga enorme que nem existe
eu até escrevi o nome da sua cidade duas vezes
no envelope que está chegando em 4 dias
a partir de segunda
tanto faz, já que agora você é a primeira
a mais bonita, tudo que importa
toda a atenção, o foco, o lado pra que quero
pender na cama cansado de não ter
todas as respostas pra te dar, por enquanto
então se você quiser o mundo,
te ofereço o meu.

seriam estrelas os aviões?

ah, momento de felicidade
hora de acender a cidade
de dentro pra fora
fechar o ciclo preferido na imensidão
deixar que o dia queime as bordas
do horizonte
e a noite caia como uma criança
aprendendo a caminhar sem qualquer adulto ao redor, outro ano para
se entregar aos mistérios dos hemisférios
ao frio e calor cá e lá
abraçar o próximo como se fosse dom
em três, dois, um
chorar quieto num canto
de noite feliz à folha virada do calendário
admirar mudo a mudança de cenário
os passos das pessoas apressadas
sombras nas janelas assombradas
e lá em cima, bem acima do firmamento
como se fosse no fundo, lá no fundo do peito
não servem os aviões como estrelas?
pra quem há muito não notava o céu escuro
e chegou a esquecer do que era feito
e quando passou, cadente
deu direito a um desejo
continuar querendo o amor torto e imperfeito.